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Belmiro Ferreira Braga, nasceu
a 7 de janeiro de 1872, na Fazenda da Reserva, em Vargem
Grande, depois Ibitiguaia (hoje, Belmiro Braga).
Morreu no dia 31 de março de 1937, às 6 horas da tarde.
Estranha essa velha e sempre novíssima Minas Gerais.
Dá Belmiro Braga e Carlos Drumonnd de Andrade. Montanhas
de ferro, vermelhas, enferrujando-se no ar, pastagens e
campos verdes, de águas claras e brancos leites.
Escrevi certa vez: “Inglaterra do Brasil” ao mesmo tempo
liberal e conservadora, desconfiada e expansiva, na alta
clausura de suas montanhas, fabrica de tudo: místicos, satíricos,
ironistas, tímidos, aventureiros,. Fechada em seus limites, se
abre para o alto, voltando-se para o céu, - a sua imensa janela;
para baixo olhando de cima e de longe; como de camarote.
De extremos: revolucionária e tradicional. Na política, na poesia,
na arquitetura, em tudo. Tiradentes e Bernardo de Vasconcelos,
Ouro Preto e Pampulha Belmiro e Carlos Drumonnd. Nela os extremos
se tocam, se combinam. Vai vivendo assim com a sua dupla face,
sua alma bifronte.
A terra de poetas, de grandes poetas: é a “grande ilha da poesia”
brasileira. Não sobrevive só: faz parte de um arquipélago. Mas é
a ilha principal: ontem, hoje. Ilha montanhosa, de altos cumes.
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Aqui vamos falar de um de seus filhos., de um de seus poetas:
Belmiro Braga. aparentemente, pouco mineiro.: expansivo, jovial,
exuberante, transbordando-se em versos pela vida. Voltado para
fora; ao contrário da maioria: de costas para o mar.
Belmiro era um temperamento simples, sem complicações. Por isso
sua poesia escorreu das montanhas como um curso de d’água transparente,
córrego alegre, tirando música de cada obstáculo, de cada acontecimento.
Nasceu o poeta na Fazenda da Reserva, antigo Distrito de Vargem Grande
(hoje Município com o seu nome), perto de Juiz de Fora, a 7 de Janeiro
de 1872, e morreu em Juiz de Fora, a 31 de Março de 1937.
Herdou possivelmente a veia poética de seu avô materno, Francisco Lourenço
de Barros, “versejador mordaz” no dizer de Alves Cerqueira
( O “Rouxinol Mineiro”, artigo no “Jornal do Comércio” do Rio de Janeiro,
em 27/3/1932). Filho de José Ferreira Braga, comerciante português, e de
Francisca de Paula Braga, brasileira, Belmiro estudou as primeiras letras
no “Ateneu Mineiro”, em Juiz de Fora, de onde voltou a Vargem Grande com
a morte da mãe, ajudando o pai nos negócios. Esteve depois em Muriaé, em
Carangola, e em 1901 era comerciante na Estação de Cotegipe, onde o foi
encontrar o poeta nortista Antônio Sales, que passava tempos numa fazenda
próxima. Foi Antônio Sales quem o apresentou depois, em um artigo na imprensa
carioca, como o “João de Deus Mineiro” Na mesma ocasião conheceu Belmiro
Braga a Fernandes Figueira, médico, que colaborava em revistas da capital
do país, com o pseudônimo de Alcides Flávio. Tornando-se seu companheiro
de tertúlias literárias, Fernandes Figueira o orientou de certa forma em
sua formação intelectual e conseguiu que os primeiros versos de Belmiro
fossem publicados no Rio.
Com a divulgação de seus trabalhos Belmiro Braga granjeou em pouco tempo
popularidade. E de seu conhecimento em Minas com Antonio Figueirinhas,
editor português que andava em viagem pelo Brasil, surgiu o lançamento do
seu primeiro livro. “Montesinas” saiu prefaciado por Batista Martins, um
amigo de Carangola, quando era comerciante, e Martins, estudante de Direito
e jornalista. Lançado o livro em 1902, Belmiro publicou depois:
“Cantos e Contos”, em 1906; “Rosas”, em 1911; “Contas do Meu Rosário”,
em 1918; “Tarde Florida”, em 1925; e finalmente, “Redondilhas”, em 1934.
Escreveu também para o Teatro.
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Hoje há em Minas dezenas e dezenas de academias e grêmios literários com o
nome do poeta. E Juiz de Fora, muito particularmente, reverencia e cultuado
a memória de Belmiro Braga que dedicou à "sua cidade", e ao lar paterno,um
amor extremoso. António Sales, seu grande amigo, no livro "Retratos e
Lembranças" traça, num dos capítulos, um perfil completo do poeta, seu
temperamento, caráter e formação. Diz ele:
"O lar paterno era uma obsessão sentimental de Belmiro. O sitio Reserva,
onde nasceu e passou a primeira fase da infância, depois tão dolorosa,
tão brutalizada pelos maus tratos da vida, esse sitio era a Meca para
onde seu espírito se voltava num culto perene".
Um de seus mais tocantes poemas, redigido em forma impessoal, foi este
que ele escreveu, depois de uma visita à casa paterna:
"Foi aqui, neste plácido retiro
ouvindo a voz amiga dos teus pais,
que a infância alegre te correu, Belmiro,
a alegre infância que não volta mais. . ."
Num outro poema, dirigindo-se a amigos, exalta a alegria de rever o torrão natal:
“Meus amigos da cidade,
morrei de inveja! eis-me aqui
na ridente soledade
onde nasci.”
Belmiro era funda mentalmente um homem simples, um homem bom. Tinha direito
de se reconhecer como tal no prólogo que escreveu para o livro
“Contas do Meu Rosário”:
“Sendo minha alma simples compreendida
por outras almas simples, que prazer!
Tudo que a gente faz melhor na vida
é aquilo que se faz sem aprender.”
E, modesto:
“Que este livro não é uma obra de arte,
mostram suas estrofes sem lavor:
- do triste coração meu verso parte
como o aroma do cálice da flor.”
Enganava-se entretanto. Seu livro era uma beleza. Uma verdadeira obra de
arte. Sem artificialismos estéticos, fazendo sua poesia como andava, como
respirava, ele dava-se todo, de alma e coração, às palavras em que se
traduzia. E por isso, as palavras ganhavam essa música simples de cantigas,
traduzindo em versos e rimas sentimentos e pensamentos de toda gente.
Ele tinha razão, a poesia estava nele, como o perfume na flor, como o pássaro
no céu, como a água na terra.
De Belmiro poderia dizer que ele quase falava em versos. E se não falava,
escrevia. Eis o testemunho de seu amigo Alves Cerqueira:
“Comerciante em Cotagipe, Belmiro costumava dirigir-se aos fregueses em
versos”, porque sentia mais facilidade nesta forma do que em prosa.
Os amigos de Juiz de Fora, de tanto vê-lo versejar com a facilidade que lhe
era característica, acabaram por lhe solicitar versos em todas as
oportunidades. O caso de Irineu Rocha é por demais conhecido. O Chefe de
Oficinas do “Jornal do Comércio” de Juiz de Fora, Irineu lhe pedira
quadrinhas a propósito de qualquer acontecimento, do mais alegre ao mais
triste, de um batizado a um falecimento.
Um dia, passando pelo jornal, Belmiro soube da morte de Irineu.
E como se atendesse a uma solicitação póstuma, homenageou o velho
gráfico com estas três quadrinhas:
“Se um seu amigo morria,
ele vinha ter comigo
e umas quadras me pedia
para a morte desse amigo.
Hoje, lembrando esse fato,
eu pensei, em mágoa imerso,
que talvez lhe seja grato
ser chorado também em verso.
E assim nestas quatro linhas
venho aqui dizer-lhe triste:
- Irineu, toma as quadrinhas
que nunca tu me pediste.”
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Trovador, no velho e no novo sentido da palavra, estava em permanente
dueto lírico com a vida. Tudo lhe era assunto para a quadra, um soneto,
uma redondilha. A gente vai lendo e se admirando de que as palavras casem
tão bem no fim dos versos, como se tudo já estivesse feito, e o poeta
fosse apenas o “instrumento” que as cantava e divulgava. Foi um grande,
um extraordinário versejador.
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Com a subversão dos modernos conceitos da poesia, como definir esta poesia
discursiva, descritiva, profundamente extrovertida, sem mistérios, limpa e
transparente, de Belmiro Braga? E quando falo em Belmiro, me refiro a um
sem número de outros grandes poetas que continuam versejando, com tônicas
bem postas, métrica e rima, todos os chamados artifícios formais da poesia
tradicional.
Que há beleza, emoção, comunicabilidade no que escrevem, não há dúvida.
Que realizam autênticas obras de arte, só sectários podem negar. E então
teremos que rebatizar o gênero literário de que se servem, já que as
correntes modernas se apoderaram da palavra. – poesia – e erigiram novos
tabus de conceituação.
Para os estetas das novas correntes, os cristais teriam de subverter as
leis da cristalografia se quisessem permanecer como símbolos de beleza,
nos tempos atuais.
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Belmiro é um autor que está, de corpo inteiro, em sua obra.
Lírico e satírico, mas de uma sátira jocosa, sem maldade, era
fundamentalmente um grande emotivo, um sentimental incorrigível.
Amigo dos amigos, tomando a própria família como tema permanente
de seus versos, ele viveu em versos. era uma espécie de “ópera” viva,
ambulante! Sua vida, sua infância, a vida dos seus, seus negócios,
suas pretensões políticas, tudo para ele era verso, era poesia.
Até seu próprio testamento antecipadamente redigiu, numa auto-sátira
bem humorada. Nomeado tabelião em Juiz de Fora, em 1903, aproveitou-se
logo da sugestão do cargo:
Morto não quero o belengar de sinos
enchendo de tristeza o espaço imenso,
nem esses tristes, merencórios hinos
de charanga do bairro a que pertenço.
Cante-me o padre alguns textos latinos
por entre nuvens de cheiroso incenso,
mas desde já previno-o: pequeninos,
que os longos textos com prazer dispenso.
No cemitério, nada de discursos!
Acautelem-me ali dessa estopada
os bons amigos dos amigos ursos,
pois, em casa, o orador, à sobremesa,
dirá pensando em mim: Não somos nada!
Lá se foi o Belmiro... Que limpeza!
É muito citado o soneto que dirigiu como carta, ao pai da moça, quando
seu filho queria se casar:
Artur Fernandes de Oliveira – abraços.
Tens, amigo, uma filha e eu tenho um filho
que desejam da vida o mesmo trilho
palmilhar, a sorrir, contando os passos.
Se o amor os tem prendido nos seus laços,
se entre os dois não existe empecilho,
tu te envaideces, eu me maravilho,
por vê-los um ao outro abrindo os braços.
Se dela o coração é manso e puro,
tem ele garantido hoje o futuro
servindo à Pátria com amor e fé.
Mas vamos nestas linhas por um ponto;
o que quero de ti, aqui te conto:
- é de Cordélia a mão para o José.
E não satisfeito, na véspera do casamento, mandou ao filho a sua bênção
e as congratulações pelo acontecimento:
"Meus parabéns, José, porque suponho
que a vida que a Cordélia te assegura
há de ser de carinho e de ventura
sob a tranqüila paz de um céu risonho.
Dos teus sonhos de moço o melhor sonho
foi, meu filho, essa jovem de alma pura
em cujos dons de afeto e de ternura
todas as minhas esperanças ponho.
Abençoado seja, pois, o laço
que prende para sempre num abraço
os vossos corações de ouro de lei.
Em nossa vida a mesma estrela brilha,
que a mulher que amanhã me dás por filha
é igual àquela que por mãe te dei..."
Depois foram os netos. Abrindo o volume "Tarde Florida" está o poemeto
"Versos do Coração que começa assim:
"Cláudio e Jorge... A minha vida
de amor, carinhos, afetos,
tenho-a toda resumida
nestes dois netos!"
Candidato a deputado estadual, contando com o apoio político de seu amigo,
o Coronel Martins Ferreira, de Leopoldina, este lhe escreveu, querendo
mexer com Belmiro, que só ia lhe dar a metade da votação, porque a resposta
à sua carta lhe chegara em prosa. Belmiro não se fez de rogado.
E conquistou a votação inteira com este soneto:
"Meu caro Coronel Martins Ferreira,
candidato extra-chapa a deputado
ao congresso da Câmara Mineira,
desejo ser aí o mais votado.
A minha fé de oficio é de primeira,
vale por um programa o meu passado,
e no congresso não direi asneira
todas as vezes... que ficar calado...
Fui caixeiro, depois fui negociante,
e do torrão natal representante
agora aspiro ser como escrivão:
e eleito, espero, mas que maravilha!
- ser pai da Pátria e receber da filha
todo o subsidio, quer trabalhe ou não!
Um outro amigo seu, Abílio Barreto, reclamou de certa feita contra o
silêncio do poeta. Já escrevera três cartas e nada de resposta. Belmiro,
apanhado em esquecimento, apressou-se em penitenciar-se. E compõe às
pressas uma resposta ao amigo Abílio, na própria .Agência do Correio:
"Prezado Abílio, perdoa
a resposta demorada:
tu sabes, quem vive à toa
não tem tempo para nada."
Filósofo do povo, ele, com graça e inteligência, ia fixando a alma de sua
gente. Estava nele, - ele próprio não sabia que encarnava e simbolizava,
em sua poesia, ao fixar a vida, - a alma do nosso homem do interior,
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As duas faces da poesia de Belmiro foram sempre estas. Um profundo amor
pelos amigos, pelos parentes, aos quais dedicava um sentimento de grande
ternura; e o tom chistoso, alegre, com que brindava àqueles a quem não
podia dedicar apenas carinho. No fundo, um humor sadio, às vezes
irreverente, mas nunca agressivo ou ferino. Era terna e alegre a sua Musa.
E acima de tudo, humana.
De certa feita um jornalzinho da terra, chamado "Justiça" pediu-lhe uns
versos para um número de aniversário. 0 trabalho foi feito, pequena obra
prima, mas não foi publicado. Leiam-no e compreenderão:
"Quanto é bela a Justiça? Aplaina escolhos
e os interesses vela
do grande e do pequeno... E ela, depois,
fechando os olhos
e abrindo a goela,
engole os dois...
Reta, ao dirimir uma contenda
ajusta as artes, e, num gesto nobre,
em vez de pôr a venda, põe à venda
os bens do pobre..."
Este espírito crítico de Belmiro, que nascia da bondade de seu coração, se
manifestou até em relação aos próprios problemas estéticos. Belmiro, sem
mais delongas, não aceitava o modernismo na poesia. Intimamente havia de
achar que estes poetas modernos faziam complexa uma coisa que nele nascia
sem nenhuma dificuldade. Mas se o negócio era esse, ele também era capaz de
fazer "modernismo". No prefácio de seu livro "Redondilhas", chamando aos
futuristas de "um aluvião de turcos que invadiram a praça obrigando-o a
cerrar as portas e a recolher, como alcaides e refugos, os seus pobres
sonetos, quadras e sextilhas", ele, incoerentemente, publica seu livro,
e ainda perpetra poemas desalinhavados,
para provar que pode fazer versos iguais.
Floriano de Lemos, em belo artigo que lhe dedicou no "Correio da Manhã",
do dia 18 de abril de 1954, cita este outro fato; e comenta:
"A obra de Belmiro Braga é um monumento de naturalidade, graça e delicadeza.
Não há em toda ela um verso forçado ou uma idéia nascida sem inspiração.
Sabendo fazer poesias rigorosamente parnasianas, não desculpava, entretanto,
a mania das rimas difíceis que certos autores tinham. O estilo afetado foi
por ele duramente criticado em uma série de quadrinhas que começa por estas duas:
"Recebi de um jovem bardo
uns versos nefelibatas
de quatro pés, que não tardo
chamá-los... de quatro patas!
Ao lê-los a gente fica
pensando, e afinal descobre
que é sempre uma rima rica
que veste uma idéia pobre."
Realmente, da poesia de Belmiro Braga se pode dizer que, se há rimas
e versos pobres, estes são ricos de emoção, de ternura, de beleza.
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Em gênero nenhum Belmiro parece tão à vontade como na trova.
Poeta popular por excelência, espontâneo, ele usava a trova
com uma facilidade espantosa. E assim como os críticos têm
lembrado que Bilac já trazia um perfeito verso alexandrino no
nome (Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac),
Belmiro Braga trazia uma redondilha menor, um verso de 7 sílabas:
Belmiro (Ferreira) Braga.
Dele, eu poderia dizer:
"Fez trovas como quem ri
chora, canta, ou roga praga.
Troveiro igual nunca vi:
- Belmiro Ferreira Braga."
Foi ela ti seu Universo
cantou-a, sem querer paga,
e ao nascer, trazia um verso:
- Belmiro Ferreira Braga.
Trovador, troveiro ou trovista nato, a trova era uma medida ideal para
a sua inspiração, quer desabafando mágoas e alegrias, quer "desopilando"
suas inofensivas maldades satíricas. Humorista de fina sensibilidade,
servia-se dos versos para fixar coisas, pessoas e fatos, em rápidas
caricaturas poéticas.
Neste volume que apresentamos iniciando a "Coleção Trovadores Brasileiros",
Belmiro Braga aparece com 100 trovas, líricas e humorísticas. Numa e noutra
realizações, foi perfeito. Vamos citar um exemplo de cada face de seu trabalho.
De certa feita, Belmiro Braga satirizou um advogado juiz-de-forano, que falava,
como diz o povo, "pelas tripas do judas", mas cacete que nem ele só:
"Um certo orador maçante,
das margens do Paraibuna
ao falar, de instante a instante
vai esmurrando a tribuna.
E quem o conhece, sente
por mais ingênuo ou simplório,
que os murros são simplesmente
para acordar o auditório."
E agora, o Belmiro sentimental, lírico, autor de verdadeiras obras-primas,
cujo coração era uma misteriosa e insondável concha univalva a fabricar e
expelir pérolas e mais pérolas.
Aqui está uma destas "pérolas", dedicada justamente àquela que o deixou
órfão, tão cedo:
"Acima de tudo, acima
do céu te devemos pôr,
pois teu nome não tem rima
nem limite o teu amor."
Mas suas trovas não são apenas sentimento. Eram também pensamento.
Despreocupadamente, - com beleza e sinceridade - Belmiro aconselha
a dois noivos, no dia das bodas:
"A noticia bato palmas
e mando um conselho aos dois:
- primeiro, casem as almas,
casem os corpos depois."
"Que eu tenho os olhos cansados
de ver (umas mil talvez),
dentro de corpos casados,
almas em plena viuvez."
A verdade em relação a Belmiro Braga é uma só. Um poeta, com tal
força de expressão e com tão profundo sentimento de humanidade,
não precisa de escolas. É um Poeta. Sobreviverá a qualquer tempo.
Será sempre ouvido.
E isto basta. Está cumprida a sua missão.
Neste tempo Belmiro Braga já escrevia artigos no jornal de Juiz de Fora O Farol, chegando até escrever um livro de versos-Rosa e Liros. Sua vida aventureira vai traçando muitos caminhos, onde é rica em peripécias-dorme em esteira dura, muitas das vezes trabalha sem remuneração, mas, a recompensa vem pelas boas amizades que fez, nas inúmeras cidades de Minas Gerais por onde passou como, Muriaé, Tombos, Carangola entre outras.
Em Carangola a sete de fevereiro de 1891, casa-se com a filha de um advogado local, a senhorita Ottilia Portilho, com a qual teve três filhos, dois mortos na infância, sendo que o primeiro teve o nome do bisavô em homenagem feita pelo pai e o terceiro José Epitácio que herdou a verve poética do pai, não deixou nada publicado.
Belmiro Berlamino de Barros Braga, nasceu a 7 de Janeiro de 1872 na Fazenda da Reserva- Vargem Grande, onde seus pais já residiam: o português bracarense José Ferreira Braga, conhecido por todos na vizinhança, como o Braga da Reserva e a mineira de Rosário, município de Juiz de Fora Francisca de Paula Braga.
Foi neste local que Belmiro Braga e seus sete irmãos mantinham junto com seus pais um sítio - plantação e gado e uma pequena venda a beira da estrada.
Belmiro Braga cresceu e conviveu com as montanhas, rios, cachoeiras, com os animais, com as flores, uma típica paisagem mineira. Considerava os nativos daquela região pessoas incultas,mas também, se fazia digno da terra que nascera e vivera até a adolescência:
...Foi convivendo com essa gente inculta, quase toda minha conterrânea, que comecei a perceber que o mineiro, com seu ar ingênuo e retraído é o povo mais esperto do Brasil e que, nas descrições das cousas que conhece, aplica os termos mais precisos e chistosos.
Mesmo ainda sendo um garoto aos sete anos, já se fazia um questionador sobre a mata, os bichos, o trabalho cotidiano e tudo aquilo que o cercava. Nesse mesmo ano fora para a escola à qual ficava uns 6.000 metros de distância de sua casa, essa era sua obrigação de todas as manhãs, até ser mandado aos doze anos para o colégio Atheneu Mineiro, em Juiz de Fora.
Apesar das habilidades com a fala e com a escrita e a esperteza que aprendera naquele lugarejo, ficou assustado ao chegar em Juiz de Fora:
...Aos doze anos fui para o colégio Atheneu Mineiro, em Juiz de Fora, aonde cheguei ao anoitecer. Fiquei assombrado ao atravessar um monte de ruas iluminadas e mais assombrado ainda quando me vi sozinho no casarão do colégio.
O jovem Belmiro Braga mal tinha se acostumado com as ruas iluminadas, e com o grande casarão, quando veio a notícia do falecimento de sua mãe no dia 19 de outubro de 1883.A mando do pai após a missa de 7º dia trocou o banco da escola pelo balcão da venda.
E mesmo, distante do colégio não deixava de ler ou escrever alguma coisa nas horas de folga, este seu grande prazer.
Belmiro Braga saiu de casa sem o conhecimento de ninguém, seu pai só ficara sabendo o motivo de sua saída através de uma carta, enviada três meses após sua partida.O pai acatou a decisão do filho, o encorajando a seguir a sua vida, mas, sempre com honestidade.
n.01
As almas de muita gente
são como o rio profundo:
-a face tão transparente,
e quanto lodo no fundo!...
02
Em ti, minha mãe, se encerra
todo o meu maior troféu:
- guardas num corpo de terra
uma alma feita de céu.
n.03
Fiz na vida o meu escudo
desta verdade sagrada:
- o nada com Deus é tudo
e tudo sem Deus é nada.
n.04
Quem, mesmo nas alegrias,
de lastimar não se furta
de ver tão longos os dias,
para uma vida tão curta?...
n.05
Quem, mesmo nas alegrias,
de lastimar não se furta
de ver tão longos dias,
para uma vida tão curta?..
06
Pobre de mim! Por desgraça
meu coração é um coador:
nele, o riso escorre e passa
e fica tudo o que é dor.
n.07
A beleza não te atrai?
Só te casas por dinheiro?
Tu pensas como teu pai,
que morreu velho e... solteiro.
n.08
Saudade... palavra linda,
de sete letras... Saudade
é noite que tem ainda
lampejos de claridade
n.09
Casa em março Ester Macedo
e em julho é mãe...Ora,o alarde!
O filho não veio cedo,
o esposo é que veio tarde...
n.10
Só mesmo Nossa Senhora
pode dar paz e conforto
à desgraçada que chora
a ausência de um filho morto.
11
Muitas vezes imagino,
nos meus dias desolados,
que o meu coração é um sino
dobrando sempre a finados.
12
Eu não lamento o revés
do morto que se fez pó;
do vivo, que espera a vez,
desse sim, eu tenho dó.
n.13
Quantos mortos trago vivos
no fundo do coração,
e dentro em mim quantos vivos
há muito mortos estão!...
n.14
Olhaste Jesus na Igreja
demais.E tanto o tens visto...
Fazes-me assim ter inveja
da própria imagem de Cristo.
n.15
Eu morro por Filomena,
Filomena por Joaquim,
o Joaquim por Madalena
e Madalena por mim.
n.16
A vida, pelo que vejo,
hoje é vale e amanhã cimo:
-A quantos pobres invejo
e a quantos ricos lastimo!
n.17
Vivo,encheu(a História o prova)
com suas glórias o mundo,
e, morto, não enche a cova
de quatro palmos de fundo.
n.18
Teu coração é morada
que não atrai, felizmente:
-Quem nele arranja pousada
encontra a cama ainda quente.
n.19
Meu coração é uma ermida
toda enfeitada de flores,
onde conservo escondida
Nossa Senhora das Dores.
n.20
Uma princesa parece,
pelos trajes de alto preço,
mas quanta gente conhece
seus vestido pelo avesso!...
n.21
Os beijos, segundo os sábios,
dados com muita afeição,
não deixam sinal nos lábios,
mas deixam no coração.
n.22
Num tronco seco, sem vida
minha mão teu nome abriu
e o tronco seco, em seguida,
reverdeceu e floriu.
n.23
Desilusões, desenganos,
tudo a velhice nos traz,
mas existe, além dos anos,
a eterna bênção da paz...
n.24
Politiqueiros... Que súcia!
Segundo as leis de Lavater,
o que lhes sobra em astúcia,
é o que lhes falta em caráter.
n.25
Dizem que a lágrima nasce
do fundo do coração...
Ah! se a lágrima falasse,
que doce consolação!
n.26
Vi teus braços... que ventura!
teu colo... as pernas... que gosto!
Agora, tira a pintura,
Que eu quero ver o teu rosto.
n.27
Quis a sorte que te visse,
quis o amor que eu te adorasse,
quis o dever que eu partisse,
quis a paixão que eu ficasse.
n.28
Por ver-me alegre e contente,
julga-me o mundo feliz:
nem sempre o coração sente
aquilo que a boca diz..
n.29
Mulheres que eu vi no banho,
vejo-as depois no salão!
-Se pelo rosto as estranho,
pelas pernas sei quem são.
n.30
Na justiça tem confiança
e verás. depois, surpreso
que, por ter venda a balança,
ela te rouba no peso.
n.31
Muitos supõem a ventura
ver em meus olhos brilhar,
quando esse brilho é tortura
de já não poder chorar.
n.32
A mulher para ser Vênus
deve ter cintura fina,
olhos grandes, pés pequenos
e língua bem pequenina.
n.33
Que grande, triste verdade
me sussurra o coração:
- a dor é uma realidade,
a alegria - uma ilusão...
n.34
Quanta vez junto a um jazigo
alguém murmura de leve:
- Adeus para sempre, amigo!
E diz-lhe o morto: - Até breve!
n.35
Natal! E eu sinto em minha alma
cantando uma ave... Natal!
No dia azul - quanta calma!
Parece a noite um rosal!
n.36
Natal.No céu e na terra
quanta alegria! Natal !
A paz adoçando a guerra,
o bem adoçando o mal .
n.37
Tu não vês que vivo louco
por causa desta afeição ?
Coração,sossega um pouco,
coração sem coração!
n.38
Muito mais desenxabido
que a goiabada sem queijo,
é te abraçar,bem querido,
e não poder dar-te um beijo.
n.39
Acima de tudo, acima
do céu, te devemos pôr:
o teu nome não tem rima,
nem limite o teu amor.
n.40
Coração, bate de leve;
deixa os teus sonhos horríveis,
que um coração nunca deve
sonhar coisas impossíveis.
n.41
Como juiz, reto e calmo
posso afirmar sem receio:
- Mulher de boca de palmo
tem língua de palmo e meio
n.42
O que perdemos na vida,
procuramos sem achar,
exceto a mulher perdida,
que achamos sem procurar...
n.43
Amigos... E quanta gente
não crê na verdade atroz
que,no mundo, há um somente:
- Aquele que existe em nós.
n.44
Teus olhos, Rosália amada,
me recordam dois ladrões,
sob a pálpebra rosada
tocaiando corações...
n.45
Olhos pretos, dois acesos
e recendentes carvões:
- Par de algemas que traz presos
corações e corações.
n.46
Prezado amigo, perdoa
a resposta demorada:
tu sabes, quem vive à toa,
não tem tempo para nada.
n.47
Não conhecem, mesmo os sábios,
este caso singular :
- Fala a mente pelos lábios
e o coração pelo olhar.
n.48
A mulher, além de terna,
faz tudo com perfeição,
que até nos passando a perna,
tem a nossa gratidão...
n.49
No anel que me deste, pego
e vejo que é falso, crê.
- Se o amor verdadeiro é cego,
também falso é o amor que vê...
n.50
Nossa Senhora Sant'Ana,
permita que possa um dia
mobiliar minha choupana
com as "cadeiras de Maria!"